A liberdade do Cristão
Da Liberdade do Cristão (1520): Prefácios à Bíblia, de Martinho Lutero
Ricardo Lauxe Reinke
Martinho Lutero inicia a obra “Da Liberdade do Cristão” - sermão que outrora ele já havia dedicado ao Papa Leão X - mostrando que a liberdade cristã é uma relação contraditória, onde o cristão é livre de tudo e de todos pela fé, mas ao mesmo tempo, ele é servo de tudo e de todos pelo amor.
Para explicar essa afirmação, Lutero apresenta argumentos bíblicos, que mostram que o cristão possui uma natureza dupla. Isto é, segundo a alma, esse é considerado espiritual, novo e interior, enquanto que, pela carne, ele é chamado de homem corporal, velho, e exterior.
Por meio das Sagradas Escrituras, o teólogo evidência que nenhuma coisa exterior - ações possíveis de se realizar com o corpo e no corpo - pode tornar o ser humano justo e livre. Ele argumenta que nenhuma obra serve para justificar a alma, sendo que essa pode renunciar todas as coisas, exceto a Palavra de Deus, a qual é o seu único auxílio. Para Lutero, essa Palavra nada mais é do que a pregação feita por Cristo, contida no Evangelho. Por essa razão, o autor entende que o certo seria que a única obra e prática dos cristãos fosse formar-se pela Palavra e por Cristo, desenvolvendo e praticando constantemente essa fé.
Com respaldo nos textos do Apóstolo Paulo, Martinho Lutero destaca que, o justo viverá pela fé, sendo unicamente ela que torna o homem livre. A fé por si só faz com que o cristão não precise de obra alguma para alcançar a justiça e a bem-aventurança. Isso porque a fé une a alma do homem à Cristo, como num casamento, onde Jesus presenteia o cristão com o que Ele tem, enquanto que, o homem entrega todos os seus vícios e pecados a Jesus.
Porém, o autor ressalta que a fé não faz com que o cristão se torne ocioso e mau. A fé é tudo e vale por si só para se alcançar a liberdade, mas não é justificativa para o cristão gozar a vida sem fazer nada. Isso só seria possível se ele fosse apenas espiritual, entretanto, o cristão permanece nesta vida física, habitando no mundo, possuindo uma natureza corpórea e tendo que lutar contra a carne. Lutero explica que, a partir da purificação da alma mediante a fé, o homem passa a desejar também as coisas que vem de Deus. Para o autor, as obras são conseqüência da fé, realizadas desinteressadamente com um amor voluntário que adora a Deus, buscando sempre agradá-lo e cumprir a Sua vontade.
Com base em argumentos bíblicos, Martinho Lutero diz que todas as obras devem visar ao bem do próximo, pois a verdadeira fé é aquela que entra em ação com disposição e amor. A partir dessas constatações, o monge agostiniano conclui incitando o cristão a ir de encontro aos necessitados, colocando a sua fé e justiça a favor do seu próximo, como Cristo fez. Pois para o autor, um cristão não vive em si mesmo, mas em Cristo e em seu próximo; em Cristo por meio da fé e no próximo por meio do amor.
Na época de Lutero, a Igreja Católica com a justificativa de construir a Basílica de São Pedro, mobilizou-se em levantar dinheiro por meio da concessão de indulgências, ou seja, em nome de Deus a igreja perdoava os pecados daqueles que enchiam os bolsos dos lideres eclesiásticos (Enciclopédia do Estudante, 1994). Diante disso, Martinho Lutero se opôs à falsa doutrina de salvação por meio de boas obras, principalmente por saber que a Bíblia diz exatamente o contrário: “o justo viverá por fé” (Romanos 1,17). Como um forma de protesto a falsa doutrina, Martinho Lutero escreveu inúmeros textos, dentre os quais se destaca o sermão “Da Liberdade Cristã”.
“Da Liberdade Cristã” é uma preciosa obra escrita em 1520, que aponta para as Sagradas Escrituras, esclarecendo de forma didática o que é um cristão e em que consiste a liberdade que Cristo lhe proporcionou e presenteou. Dentre as referências que Lutero fez ao Apóstolo Paulo em sua obra, destaca-se: “Porque sendo livre de tudo, fiz-me servo de todos” (1 Coríntios 9,19). Essa passagem de Paulo foi um “texto chave” para Lutero desenvolver seu sermão sobre a liberdade cristã, e isso ele claramente destaca no início de sua obra.
Desde o início de sua obra até o final, o autor usa a Bíblia como base, e isto legitimou e deu autoridade ao seu sermão. Em certo trecho de sua obra, o autor diz que a alma pode renunciar todas as coisas, exceto a Palavra de Deus, pois Ela é o seu único auxílio (Lutero, 1998, p. 27). Essa Palavra, que para ele nada mais é do que as palavras de Cristo encontradas no Evangelho, foi o poder de Deus (Romanos 1:16) para mostrar a todos que nem o papa e nem a Igreja Católica estavam acima dos governantes terrenos e muito menos da humanidade. Lutero mostrou que qualquer cristão poderia compreender a Bíblia tão bem quanto o papa, se esse a estudasse cuidadosamente. Ele resgatou o conceito de liberdade cristã de dentro das Sagradas Escrituras, mostrando que o cristão é “livre sobre todas as coisas e não sujeito a ninguém" e, ao mesmo tempo, é "servo de todos, a todos sujeito.”
REFERÊNCIAS BIBLIOFRÁFICAS
LUTERO, Martinho. Da Liberdade do Cristão (1520): Prefácios À Bíblia; tradução Erlon José Paschoal. - São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998, 127 p.
Enciclopédia do Estudante. São Paulo, SP, v. 10, p. 833, 1994.
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